Entre…

Entre a noite e o dia, a transição.

Entre a reticência e o desejo, um beijo.

Entre a fome e o saciar, a saliva.

Entre o despertar e, novamente, o sono, uma sempre despedida.

Entre a incerteza e a convicção, um vislumbre apenas.

Entre o fado e o enfado, uma escolha.

Entre o virtual e o real, um cerrar de olhos.

Entre o que registro e o que quero, a teimosia…

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Brokeback Mountain: bela obra!

(Início de 2006)

Deixei a sala 4 do Cine Avenida Center, na noite da última quinta-feira, profundamente tocado. Tentei, em vão, dar um outro rumo para esta coluna, escrita logo cedo, na sexta-feira. Não foi possível. As imagens do filme não me abandonavam, afrouxando qualquer sinal de resistência.

O tempo purifica a alma, pensei. Nos faz mais ou menos intransigentes, menos ou mais céticos. De qualquer forma, nos acrescenta vivência, essa mesma que vai nos levar para o túmulo melhores ou piores do que planejamos ser. Esqueçam uma escala de valores para qualificar ou quantificar este aprendizado. Importa é que tenhamos vivido de algum modo que nos satisfaça, sem deixar para trás grandes lacunas, já que as pequenas são perdoáveis, compreensíveis…

No domingo anterior, acompanhei pela televisão a entrega do Oscar de melhor diretor ao chinês Ang Lee. Fiquei atento àquele rosto sereno, aparentemente contido que pegou com firmeza a estatueta dourada e fez os agradecimentos de praxe. Seu “O segredo de Brokeback Mountain” ganhara o prêmio de melhor direção, o segundo mais importante da noite.

Inevitável refletir sobre como um chinês, vindo de um país de tradições milenares, que ignora os direitos humanos mais elementares, tenha produzido uma obra tão significativa tratando de sentimentos que seu povo, simplesmente, sequer pode conceber a existência. Tanto que a notícia da premiação do filme foi imediatamente censurada na China, que também proibiu a exibição no país.

Brokeback Mountain está longe de ser o filme perfeito. Nem é, provavelmente, a melhor abordagem da homossexualidade masculina. Mas, seguramente, é a mais delicada, a que conseguiu de seu diretor, dos atores, da equipe técnica um tratamento primoroso que permeia a fotografia singular, os diálogos e silêncios.

Tudo isso resulta em que, sem muito esforço, o público pode chegar até a cena final desatento ao fato de que o par romântico é formado por dois homens. E Ang Lee consegue essa proeza. É um retratista sutil da natureza humana, tão caprichoso que não dá ao público tempo para liberar o preconceito, tatuando no âmago do espectador emoções que não dizem respeito só ao homem, à mulher, mas ao gênero humano.

O silêncio absoluto das montanhas, a paisagem bela, fria e hostil que vai marcar a vida dos dois amantes, reforça a solidão dos personagens atormentados por aquele desejo do qual não são capazes, não podem e nem querem se desvencilhar, mas que, no entanto, também aniquila suas vidas lentamente, num sacrifício que só o amor explica e justifica.

Brokeback é um filme para qualquer pessoa. Qualquer pessoa cansada de dominar seus sentimentos, de regular o afeto, de regrar as palavras, de se conduzir por valores que não resistem a sete palmos de terra…

Para concluir, registro que gostaria imensamente de ter vivido uma paixão como aquela retratada no filme. Mas, tenho de assumir que meu coração é tão itinerante como um acampamento de ciganos.

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Filmografia

(Em 05/02/2006)

Afofo o já surrado e gasto forro da poltrona, ajeito a almofada atrás do pescoço, meto a mão no saco de pipoca e, com a outra, acarinho a juba de Júnior, meu poodle. O vídeo, quase a ponto de uma misericordiosa aposentadoria, ronrona, ronca, mia e chia, mas ainda funciona. “Ata-me!”

Folheio os jornais na Internet. Fofocas, quiabo à milanesa, resumo das novelas, horóscopo, os irmãos Cravinhos voltam à cadeia, deputados e senadores “reduzem” suas férias para 55 dias, uma ventania assola o Herman Morais de Barros. “Seven – Os sete Pecados Capitais”.

Políticos que prometem, discursos ensaboados, emoção tão pura quanto a água da louça do almoço que escorre pela pia. “O Discreto Charme da Burguesia”.

Pego o expressinho em dia de forte calor. O rádio cacareja e cacareja, mas funcionar que é bom, nada. O ar condicionado do dito veículo, que separa miseráveis dos uns pouco mais afortunados também falha e, ao invés de refrigerar, sufoca. “Sujos, feios e malvados”.

Deste mesmo ônibus apeiam cerca de 10 mulheres, todas de bundas fartas, obesas. Nenhum vestígio do shake do emagrecimento, chá verde, Dieta da Lua. E todas elas felizes, pneuzinhos à mostra. “Ah, Carmela”.

Entrego o velho fusquinha com dor no peito. Já é o terceiro que me escapa para quitar dívidas. Faço-o com grande esforço, nem penso em exercitar a serenidade. Desta vez, é para pagar o imposto de renda gerado em 2003, fruto de um emprego que já nem tenho mais. Mas, o Leão só morde, dá dentadas, dilacera. Não raciocina. Tivesse o governo a mesma atenção com o meu FGTS, cujo saldo parece adormecido. “Nada de novo no front”.

José Borba continua com excelente trânsito em Brasília, inclusive acompanhando e zelando por recursos que devem desaguar nas prefeituras da região. Afirma que será candidato novamente, a despeito de ter renunciado ao mandato depois de verificar que a foice da cassação se abateria sobre ele, sem apelação. Recebe apoio de todos os lados, sequer as urnas devem desapontá-lo quando outubro chegar. “Amnésia”.

 Casas populares em terrenos de 200 metros quadrados. E o espaço para as crianças brincarem, para o idoso estender a rede? Teto importa mais que as metragens. Os abastados, contudo, têm o dinheiro que garante jardins, piscinas, churrasqueiras, sala íntima, hall social, entrada de serviço. “Minha vida de cachorro”.

Fantasmas que, meses e anos depois, ainda se estendem nas ruas, vítimas de verdadeiros assassinatos, reclamando a justiça que nem mais aos vivos pertence. Atrás dos volantes, embriagados ou sedentos de aventura irresponsável, vilões que não são perturbados pela dor de outrem. “O estranho caminho de São Tiago Via Láctea”.

Aquela interminável procissão de bicicletas, carregando gente de todas as idades, sob chuva ou sol forte, contracenando com os carrões polidos que atravessam a Av. Colombo por volta das 7h ou no final da tarde, de segunda a sábado. “A classe operária vai ao Paraíso”.

E tenho dito. “Vidas Secas”.

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Sopa de Feijão

(11/02/2006)

Quando alguém tenta embalar um debate sobre religião e sou o interlocutor, procuro liquidar a pendenga antes que ela se instale. Digo: imagine se você tivesse nascido num país árabe, numa tribo africana de tradições seculares, na China, Japão, Indonésia ou numa ilhota qualquer encravada no meio do oceano. O mais provável, quase certo, é que sua religião seria aquela herdada de seus pais. Quando crescesse, também muito provavelmente olharia com indiferença, desconfiança, preconceito, ódio até, todas as demais crenças que destoassem da sua. Da mesma forma são as culturas ao redor do mundo, que adotam dietas as mais diferentes, são mais ou menos tolerantes com as manifestações sexuais de seus povos, admitem demonstrações de afeto e amizade diferenciadas – nem por isso menos autênticas e verdadeiras. Todas essas maneiras diferentes de passar pela vida estão a nos dizer que entre o certo e o errado há uma distância muito maior do que a nossa medíocre capacidade de aceitá-las e respeitá-las.

Na infância, aos cinco ou seis anos, minhas narinas levaram para o cérebro, num compartimento inacessível aos ladrões de sonhos e recordações, um cheiro mágico de caldo quente feito de feijão, batatas, salsinha picada e macarrão. O cheiro vinha do quintal de casa, na provinciana Santa Gertrudes, interior de São Paulo, onde se fixaram meus avós maternos e paternos nos primeiros anos do século passado. Era um quintal enorme, de terra, com bananeiras, pequena horta e outras plantas frutíferas. Havia um cerca de balaústres, com duas ou três ripas estrategicamente soltas, para permitir a integração entre os dois quintais. Naquela parte moravam Nanô, Elza e a filha deles, Dilei, que tinha a minha idade. Era uma família de negros. Meus pais gostavam muito deles. Se não me engano, Nanô trabalhava para meu avô paterno.

O cheirinho daquela sopa encantada começava a me atormentar os sentidos no finalzinho da tarde. Eu deslizava sorrateiro pelo quintal e ia até lá espiar Elza no fogão de lenha. Fechava os olhos e ouvia o borbulhar daquele caldo grosso, suculento, feito magma marrom em erupção na velha panela de ferro. Elza, de costas, fingia não notar o tufo de cabelo louro, espetado, sobressaindo na janela de madeira. Ela destapava e tornava a tapar aquela panela de bruxa gentil e suspeito, agora, que estivesse a rir enquanto me provocava o olfato e me fazia salivar.

Era, no entanto, Dilei quem mais me flagrava naquela intrometida investigação vespertina. E ela o fazia às gargalhadas, feliz porque sabia que em poucos minutos estaríamos ambos sentados no chão de “vermelhão”, metendo nacos de pão naquele caldo e se lambuzando de sopa. Quando terminávamos, Elza me pegava no colo, beijava, brincava com meus cabelos, sapecava um tapinha no meu traseiro e me punha, finalmente, no chão. Ainda restavam alguns minutos de claridade para que eu e Dilei nos enredássemos em algum jogo infantil, à espera de meu pai e de Nanô.

Ah, lá atrás eu falava das religiões, dos preconceitos e culturas até que me veio a memória o caldo de feijão, com salsinha, batatas e macarrão. Pela vida afora, depois dessa infância deliciosamente pobre em dinheiro e rica em cheiros, sabores, folguedos e tato, sempre me pareceu natural entender que a cor da pele é só um detalhe da aquarela divina que pintou os seres, o mundo. Talvez se eu não tivesse sido criado naquele quintal, minha consciência ainda seria preta como o betume. E eu veria as pessoas como amarelas, negras, brancas, muçulmanos, budistas, cristãos, umbandistas. Enxergaria somente as diferenças, jamais o que nos iguala.  Tem sopa de feijão ai no céu, Elza e Nanô? Mandem um cheirinho, vai!

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No princípio, era assim…

(Maio/2006)

Meu universo infantil foi povoado por bichos, muitos bichos. Todos com muita personalidade, estilos próprios de ser e de viver. Parte desses animais partilhou a vida comigo numa pequena fazenda, às margens do Rio Tibagi, nas imediações de Sertanópolis, quase divisa com São Paulo.

Entre os animais que se amontoavam no terreiro ao lado da casa de madeira, sem forro, cercada por uma enorme varanda sustentada por troncos de coqueiro, havia um galo carijó. Impertinente e tolo, como soem ser os de sua espécie, atendia pelo nome de “Zé”, já que um prenome com mais de uma sílaba seria excesso para os seus precários neurônios .

Um marreco selvagem, sobrevivente de um tiro de cartucheira que lhe atingiu uma das asas, também desfilava impávido e imponente em seu figurino verde reluzente, azulado e preto. Chamava-se Hugo, era o terror do quintal. Brutal tanto quanto narcisista, perseguia galinhas e suas crias, perpetrando crimes bárbaros contra os pintainhos.  

Nada, no entanto, que se comparasse à porca Ester, por si só uma piada de humor negro. Desvairada, um autêntico porco-turbo, tinha uma agilidade infernal e um temperamento voluntarioso, irascível. Costumava descarregar seu mau humor num certo “frangueiro”, como chamávamos os mascates, vendedores ambulantes que semanalmente percorriam a zona rural comercializando roupas, perfumes, talco, louças, artigos de armarinho ou fazendo trocas com ovos, galinhas e outros animais. A louca aguardava que o pobre apeasse da carroça para abrir a porteira de arame e atacava, com os pelos vermelhos das costas eriçados, lembrando hastes de ferro. O embate só terminava quando o homem conseguia trepar em lugar seguro, longe dos dentes da estouvada.

Ester vivia livre, impondo preparo físico de maratonista a seus filhotes, que a seguiam sempre num trote apressado. Excluída da convivência com seus iguais justamente em razão do temperamento incontrolável, dado à violência sem motivo, parecia ter mais afinidades com a legião de capivaras que habitava as lagoas próximas ao Tibagi. As plantações de abóbora, milho, pepino, melão e melancia que cresciam em meio ao cafezal, mantinham-na viçosa, bem-alimentada, de sorte que os filhos também transbordavam saúde.  

Como o leite era farto na fazenda, mesmo depois de distribuído entre os empregados, as sobras, misturadas com soro, eram despejadas em metades de pneus, usados como cochos. Ali, todos se banqueteavam, numa democracia comandada por bicos e focinhos ávidos por aquele energético café da manhã. Diante daquele legítimo banquete animal, reuniam-se cinco cães, quatro patos, o gato Michel, o marreco Hugo, Zé Galo e suas pouco comportadas companheiras e rebentos.

Duas vacas, de gênios bem distintos, Beleza e Laranja, sobressaíam no meio do gado. A primeira, de orelha serrilhada, marcas de sua índole rebelde, investia até mesmo contra roupas penduradas no varal, claro que sempre em busca de um par de pernas humanas envolto nelas. Laranja, uma deusa cor de vinagre, era mais sociável e costumava ser a porta-voz das reivindicações de seus pares. Esta, aliás, era exímia comunicadora e exibia seu vasto repertório de mugidos já quando surgiam os primeiros raios de sol. Sempre desconfiei que meu interesse pela comunicação, pelo jornalismo, teve influência telepática daquela vaca. Vaca!

A fauna caseira completava-se com o cavalo Sheik (um ser superior), os burros Dourado e Pachola, mais as mulas Severa e Bolívia que, entre seus raros afazeres diários, dedicavam-se também, comprovadamente, à iniciação sexual de alguns meninos mais precoces e atrevidos.

Desses animais, Pachola era o preferido, tão amado quanto detestado por suas esquisitices. Preguiçoso, lerdo, indolente e – posso afirmar isso – mestre na dissimulação e na ironia – tinha o perfil do burro que meu pai julgava indicado para nos levar, todos os dias, ao “grupo escolar”, em Sertanópolis. Um trajeto de sete quilômetros percorrido em passos sonolentos, sem hora pra chegar. Sujeito, inclusive, à decisão crucial do animal, de atravessar ou não a ponte sobre o rio do Cerne, localizado no meio do percurso. Ou seria Serne?

Não importa. O fato é que a um metro do início da ponte de madeira, que não dispunha de guardas laterais, Pachola se detinha, num ritual de enlouquecer a mim e a meus dois irmãos. O burro meditava, refletia e só então acabava fazendo a travessia. Nós, por precaução nunca exagerada, acompanhávamos o energúmeno com os pés bem seguros, no chão. Só depois, no compasso da roça, é que a velha carroça, com rodas de aros de madeira, revestida com ferro, seguia adiante.

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Crônica do “Circular”

(Maio/2006)

Tem coisa mais constrangedora do que entrar no “circular” lotado, no final do expediente, em dia de temperatura baixa, de clima invernoso, e, ainda por cima “custipado”? Janelas fechadas, o nariz que só escorre. Nada de lenço no bolso, nem um naco de papel higiênico para conter aquela enxurrada viscosa que se precipita em direção à boca.  A tosse contida de uns, como se submetida a um silenciador invisível, se contrapõe aos espirros escandalosos de outros. Todas as essências circulam no ar, do pum mais letal à loção importada.   

Mesmo assim, no banco de trás, uma garota cheia de pose, pedante, com pinta de sereia de “corguinho”, atende seu celular. Do outro lado, um rapaz fala alto. Ela logo pergunta sobre a namorada de seu interlocutor e acrescenta ter visto a dita cuja no dia anterior, explicando que conversou com a amiga, que ficou com peninha da pobre e, principalmente, que notou certa mágoa no ar…hummmm. E desfere: Por que? Vocês brigaram? Ele responde qualquer coisa que deve significar um sim, deixando sua ouvinte mais entusiasmada. Então, disposta a consolar o brigão, ela aplica o golpe: “Vem cá, cê vai descê lá pro bairro mais tarde” Ele confirma. E ela: “se quiser passar lá em casa, vou ta sozinha…” Ele topa. Ela desliga o aparelho e já conecta outro, não tão à vista… – Tudo resolvido em questão de minutos. Traição, desejo, fusão. Sem reservas, sem culpa.

Pesquisas científicas recentes indicam que lá nas bibocas das cavernas, humanos e macacos copulavam entre si. Não duvido. Pelo menos continuamos exercitando a sexualidade sem muita preocupação com parceiros, optando, geralmente, pelos que estão mais a mão, como a garota do ônibus, se lixando para o que estariam conjeturando sobre sua atitude outros pelo menos 10 passageiros ao seu redor.

Camuflada por um trio de bundas que me impedem de vê-la, uma “crente” recita para a curiosa companheira de assento o que foi seu dia de trabalho. Mulher de fé, ela relata que o “gerente do mercado” onde trabalha também “já notou” que uma certa colega do setor de limpeza é o mais “puro relaxo”. O “irmão” percebeu que “ela só enrola, que é mentirosa”, conta. A vítima, distante, fica sem defesa, enquanto a “irmãzinha” sempre apegada à generosidade que o Pai celestial legou a seus súditos, sapeca maledicências sem parar. Tudo em nome do Senhor, este ser que, com o perdão da palavra, deve mesmo ter um saco enorme para administrar tanta estupidez.

O ônibus segue seu curso. Há outras dezenas de conversas que podem ser captadas no ambiente. Marmitas vazias disfarçadas em sacolas. Uma criança faz manha e a mãe retruca com mimos. Dinheiro escasso nos bolsos. Sonhos atropelados pela rotina. E a descoberta de que o ser humano persiste sendo uma inesgotável fonte de diversão ou da mais completa desesperança…

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Conexões desconexas

(Em 31/05/2006)

Quem procura eco em milhares de salas de bate-papo abertas na Internet topa, em geral, com o silêncio. Porque o silêncio não se preenche só com palavras. Pouco ou nada se aproveita desses contatos virtuais onde predomina a comunicação simplificada, feita de abreviaturas e expressões absolutamente vazias de significados. Raro identificar alguma evidência de boa vontade, algum vestígio de seriedade, de capacidade no trato com pessoas. Em vez de proporcionar descobertas e revelar interlocutores interessantes que tenham alguma coisa útil a dizer ou a compartilhar, o anonimato parece induzir à idiotice.Os guetos tomam conta. E, como toda droga, causam dependência.

A procura por sexo é, em síntese, o elemento, catalisador dessas conversas. Não importa se a sala acessada proclama que o espaço é para fazer novos amigos, para compartilhar credos religiosos, paixão por cinema, livros, música, animais de estimação, jogos ou mesmo quando se apresenta, objetivamente, como recinto para encontrar parceiros interessados em contatos reais e relações mais picantes. Quase sempre, ainda que comece com uma singela declaração de amizade, o papo logo evolui para o conhecimento das características físicas dos parceiros, virilidade, preferências e fantasias sexuais. Se tomar outro rumo, considere-se um sortudo, privilegiado. Ou não…

O certo é que essas salas refletem precisamente o que se passa no mundo real, digamos. Vemos dezenas, centenas de pessoas no decorrer de uma semana, milhares delas ao longo da vida. Mas, de quantas delas conseguimos, de fato, nos aproximar? O mundo, embora constituído predominantemente por humanos, como nós, não facilita contatos. Pelo contrário, trabalha contra qualquer aproximação, desestimula relações sólidas. No máximo, favorece relações de consumo, descartáveis. Na Net, é o descartável que se impõe. Não tem olhos, tato, paladar, olfato…alma. Passa-se a imagem que se quer, a que convém no momento e se tem todas as razões para supor que o interlocutor, do outro lado, também está interpretando um papel.

Diferentemente do mundo “real”, a conversa virtual é mais direta, vai ao ponto crucial sem muitas delongas. O preconceito que se camufla aqui fora, lá é acionado à queima-roupa. E dificilmente alguém vai se preocupar com sentimentos, polidez, gentilezas. Não se pode perder tempo com devaneios, dita a regra. No entanto, a fauna humana, com todas as suas virtudes, taras, aberrações, está ali, livre, sem mordaças. Escondida atrás de uma adolescente aparentemente inocente, de um pacato senhor maduro, de um assassino em potencial, de um psicopata, pedófilo, de uma mulher mal-amada ou de um poeta solitário. Todos predadores, encorajados por um ambiente onde não há rostos, olhares frontais, satisfações a dar. As armas: um teclado e um resumido código de palavras, suficientes, imagina-se, para preencher todos os vazios. Pelo menos até o dia seguinte…

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